Teoria x Prática

O equilíbrio entre a recomendação dos pediatras e a experiência dos pais no dia-a-dia é o que a criança precisa

Quem nunca saiu de uma consulta com a sensação de que o pediatra mora em outro planeta e jamais lidou com uma criança de verdade? Às vezes, os conselhos dos especialistas parecem mesmo impossíveis de ser seguidos: nunca faça seu filho dormir no colo, uma criança de 5 anos deve comer sozinha sempre, os filhos não podem dormir no quarto dos pais em nenhuma hipótese, e por aí vai. O problema é seguir tudo isso na vida real. Sim, porque mães têm de trabalhar cedo no dia seguinte mesmo quando o bebê chora de madrugada e precisam levar o filho na hora certa para a escola. Aí bate um misto de culpa - por transgredir as regras - e de raiva - o pediatra que não entende. As recomendações de médicos e psicólogos são as corretas, as ideais. Eles mesmos, no entanto, sabem que não é possível seguir todas à risca. "Os conselhos devem ser temperados com as experiências do dia-a-dia. Ninguém pode se colocar no lugar da mãe. Existem uma sintonia e uma intimidade entre ela e o filho que precisam ser levadas em conta. Faço isso com as minhas filhas e sempre deu certo", diz a terapeuta familiar Anne Lise Scappaticci, mãe de uma menina de 7 anos e outra de 1 ano e 10 meses. Use o bom senso, tente fazer o ideal e confira aqui algumas situações comuns em que as regras costumam ser quebradas.


COMER NA FRENTE DA TV

A criança deve aprender a comer, sentir o gosto do alimento, saber quando está saciada. Isso tudo não acontece quando elas estão distraídas, dizem os médicos. Mas o dia-a-dia é cruel com os pais. O filho está descobrindo o mundo, quer brincar, pular, dançar, tudo menos ficar parado comendo. É necessário um tremendo malabarismo e geralmente, depois de mímicas, brincadeiras de aviãozinho e muitos brinquedos, apela-se para a televisão. Como conta o designer gráfico Roberto Dohan, pai de Bernardo, de 1 ano e meio: "Meu filho não pára quieto para comer. Por isso, nas horas das refeições, sempre há um brinquedo por perto e até a televisão. Não é o ideal, mas não achamos solução melhor. Por outro lado, damos a comida explicando que aquilo é uma batatinha, o outro é um espinafre e ele também presta atenção nisso, pois já sabe mostrar o que gosta e o que não gosta. Não acho que essas distrações atrapalhem tanto", diz. Segundo o pediatra Jayme Murahovschi, da Sociedade Brasileira de Pediatria, uma distração leve não faz mal na hora da refeição. "Mas devemos tomar cuidado com a televisão. Ela vicia até adultos. A criança não prestará atenção na comida nem em sua saciedade, o que pode levar à obesidade. Apesar de ser difícil, é um hábito que deve ser tirado aos poucos", alerta. É melhor deixá-la para último caso.

DORMIR SEM TOMAR BANHO

Ela chegou da festinha e se jogou na cama... Dormiu. Não há meios de acordá-la para tomar um banho a não ser entre tapas, empurrões e gritarias. Ora, até nós adultos cometemos esse pequeno tropeço higiênico quando estamos muito cansados. A não ser que a situação seja pavorosa, como um cabelo cheio de tinta ou o corpo enlameado, nada impede que você apenas troque a roupa, passe um lenço úmido nos pés e onde parecer mais sujo, sem nem precisar acordar a criança. "Eu mesma já fiz isso algumas vezes", conta a pediatra Gelsomina Colarusso, mãe de um menino de 13 anos. "É só não deixar acontecer sempre, principalmente se a criança estiver entre os 3 e os 6 anos, fase de formação de hábitos", sugere.

DORMIR COM OS PAIS

A partir dos 2 anos, a criança usa mais a imaginação e fica difícil distinguir o real do imaginário. Muitas têm medo de dormir no próprio quarto. Resultado: ela quer a cama dos pais. Segundo os especialistas isso não deve ocorrer. É melhor um dos pais dormir no quarto da criança para mostrar que é seguro. Mas nem sempre dá para ser assim. Você pode aliviar a situação colocando um colchão para a criança no seu quarto, às vezes. O que não pode é a criança dormir no meio dos pais, costume bem mais difícil de tirar. "É grave quando a criança depende disso para dormir. Além de atrapalhar o relacionamento dos pais, ela sempre vai achar que precisa deles. Ela tem de enfrentar alguns medos para se sentir segura de que nem todos os seus receios são verdadeiros", diz a pediatra Gelsomina.

CERCADINHO

Alguns pediatras desaconselham seu uso, pois a criança pode se sentir abandonada ou presa em um momento em que precisa de atenção e liberdade. Correto. Mas entre um cercado e uma criança solta sozinha pela casa, a primeira opção se torna a melhor. Como no caso da empresária Cristiane Rodrigues Hinkeldei com sua filha, Maria Clara, de 1 ano e 4 meses. "Preciso de um tempo para arrumar a casa, e deixar a Maria Clara no chão sobre um edredom seria muito perigoso. Prefiro colocá-la no cercadinho onde terá mais liberdade do que no carrinho. Ela fica com os brinquedos, enquanto conto o que estou fazendo. Não acho que ela se ressente por isso e, ao mesmo tempo, fico segura", diz Cristiane. Por pouco tempo e associado a algo divertido, o cercadinho não faz mal. O que não dá são os pais se acostumarem com a comodidade de ter a criança sobre controle lá dentro o tempo todo ou usá-lo como local de castigo.

DORMIR NO COLO

Na teoria, criança deve dormir no berço e sozinha. Na prática, os pais enlouquecidos pegam no colo, empurram o bebê no carrinho e até passeiam de carro. A assessora Claudia Maria Chaves não tem o menor problema em fazer seu filho, João Vítor, de 5 meses, dormir no colo, quando está muito cansada. "Até agora, não tive nenhum problema", diz. Quando pouco, tudo bem. "Mas se você notar que isso acontece na maioria das noites, estará interferindo em um investimento para o futuro: a criança realmente deve aprender a dormir sozinha no berço. Se ela se acostumar a dormir no colo, ficará muito mais difícil reverter o quadro", diz o pediatra Jayme. Use a tática apenas em emergências.

ASSISTIR TELEVISÃO

Apesar da terrível fama, a verdade é que a televisão é algo inevitável na vida de uma criança moderna. Ela é uma diversão válida, quando o programa for adequado. Mas tem de ser vista como um fato a mais no dia: há hora para ir à escola, hora de passear no parque, hora de banho, hora de ver televisão. "Duas horas por dia está de bom tamanho para que a TV não ocupe o lugar de outras diversões", sugere a pediatra Gelsomina.

DAR UM LANCHE SE ELA NÃO COMEU A ÚLTIMA REFEIÇÃO

Ela fez birra e não comeu nada no almoço. Obediente aos conceitos da pediatria, você avisa que só comerá na hora do lanche da tarde. Mas, depois de um tempo, o coração de manteiga vai derretendo ao ver aquele rostinho pedinte e com fome. O que fazer? "Procure não dar biscoitos ou danoninhos que vão tirar a fome do lanche, além de incentivar a criança a usar o recurso novamente em outros dias. Ofereça uma fruta misturada com cereais, que também é docinho e sacia um pouco a fome, apenas. O melhor é adiantar em uma hora o lanche", sugere a pediatra Gelsomina.

DAR DOCES ANTES DO FILHO COMPLETAR UM ANO

Eles são muito gostosos e podem sim atrapalhar a criança que está aprendendo a comer papinha e frutas. Mas existem circunstâncias especiais. Se você está na praia, por exemplo, tomando sorvete e seu filho de 9 meses insinua que quer experimentar, por que não dar uma lambida? "Tive quatro filhos e agora lido com dez netos. Se falar que nunca fiz isso, vou estar mentindo. Mas sigo algumas regras. A primeira é esperar a criança pedir. Na maioria das vezes, ela não pede, os pais é que ficam achando que devem dar. Não ofereça, espere a solicitação e dê só um pouquinho. E não deixe isso virar um hábito", aconselha o pediatra Jayme.


TROCAR A CHUPETA POR UM PRESENTE

Só vale quando é iniciativa da criança. Largar a chupeta é difícil, mas, diante de um brinquedo desejado, ela aceitará a troca. Só que mudará de idéia no dia seguinte porque são prazeres diferentes. "O brinquedo é algo material e a chupeta praticamente representa a mãe", explica a terapeuta Anne Lise. Os pais devem ser parceiros da criança nessa hora e negociar de forma gradual. Tire-a durante o dia, no período da escola ou nas visitas aos vovôs, por exemplo. Depois, deixe a chupeta só para a hora de dormir. Com o tempo, ela mesma vai largar e aí você pode deixá-la escolher um brinquedo novo. A professora Claudia Honegger age assim com o filho Hélio Gomes Pereira Neto, de 2 anos. "Estou tirando a chupeta durante o dia. Quando notar que ele não está mais tão interessado, vou sugerir a troca. Mas estou esperando que ele tome a iniciativa", afirma Claudia.
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