Chantagem Infantil


Thaís, de 5 anos, só termina a lição depois de ouvir da mãe a promessa de que, com a tarefa concluída, ganhará um belo presente. Marcos, de 4 anos, não come enquanto não vê a sua recompensa, um gostoso chocolate. Paula, de 6 anos, ameaça só arrumar o quarto se puder dormir na casa da amiguinha.
Quem nunca viu uma destas cenas? Para desespero dos pais é comum as crianças tentarem negociar coisas como doces, balas, brinquedos ou mesmo a ida à casa dos amigos e ao clube em troca de obrigações como escovar os dentes, fazer a lição de casa, arrumar o quarto, etc. Outras vão mais longe. Usam e abusam da manha e da birra como um artifício para conseguir o que querem. Choram e batem o pé toda vez que a mãe está pronta para sair de casa ou se atiram no chão quando desejam "aquele" brinquedo.
Desde que começam a juntar as primeiras palavras, por volta dos 2 anos, aprendem que a chantagem pode ser uma arma, às vezes, muito eficaz. O aprendizado começa dentro de casa, com os pais. Chantagens como "se você comer tudo a mamãe vai lhe dar um chocolate depois do jantar" ou "se você terminar a lição pode ir à casa do seu amigo" são tão freqüentes quanto o inverso, quando a criança pergunta à mãe se ela comer tudo ganhará o chocolate ou se terminar a lição poderá ir à casa do amiguinho. Pais chantagistas, filhos chantagistas.
Por isso, o primeiro passo para desarmar uma criança chantagista é a auto-análise dos pais. Eles devem se perguntar : "Como eu lido com os limites? "Afinal, a chantagem nada mais é do que uma tentativa de burlar a regra, uma dificuldade de aceitar as normas ou de se deparar com a falta de algo ou de alguém. Se os pais não souberem aceitar seus próprios limites, dificilmente conseguirão passá-los para os filhos. Muitos deles têm dificuldade de encarar suas frustrações e, por isso mesmo, não agüentam ver os filhos sofrerem, porque querem um brinquedo novo. Perdem de vista que vai ser melhor para a criança dizer um não com amor, carinho e firmeza do que deixar que ela faça o que quer. Como começa? Geralmente, o caminho que leva à chantagem é longo. Começa com uma ou mais tentativas da criança de negociar uma "lei" dentro de casa. Se ela vê que os pais responderam à tentativa com um não duvidoso, insiste e, como último recurso, chantageia. Os pais, com freqüência, caem na armadilha. Alguns acham que é mais fácil aceitar o acordo do que agüentar a manha, a birra ou o mau humor deles. Outros amenizam a culpa que sentem satisfazendo todas as suas vontades. Independentemente do motivo, o engano pode custar caro. Criança chantagista pede sem parar, não sabe o que quer e nunca está satisfeita. As conseqüências que isso tem na vida adulta são muitas : dificuldades de se adaptar a leis, a regras e a valores da sociedade e até de convivência com as pessoas. Afinal, agüentar um chantagista é uma tarefa difícil.
Chantagem não pode virar regra É claro que há tipos e tipos de chantagens. E nem todas chegam a causar danos tão sérios para a criança. Tudo vai depender da intensidade, do jeito que ela é feita e do tipo de relacionamento que a mãe tem com o filho. De um modo geral, quando a chantagem vira regra e serve para explicar por que a criança tem que fazer algo é um mau sinal. Por exemplo, seu filho precisa comer para viver e não porque vai ganhar um chocolate. Ele deve escovar os dentes para que eles não tenham cárie e não por que vai poder ir à casa do amiguinho. É isso que os pais têm que deixar claro para a criança. Se usarem a chantagem o tempo todo e prometerem um chocolate cada vez que a criança comer, não vão estar ensinando que ela precisa se alimentar porque isso é importante para a vida dela. É claro que se um dia a mãe fala : "Eu vou dar um chocolate se você comer tudo", não vai estar causando nenhum problema muito grave para a criança. O que não convém é deixar isso acontecer sempre, de tal forma que a criança só come se a mãe lhe der chocolate. Ou o contrário. A mãe oferecer um chocolate cada vez que a criança comer tudo. A chantagem torna-se, então, um vício e a relação passa a ser feita na base da troca e da recompensa.O que fazer para escapar? Muitos pais só percebem o problema quando a criança já foi longe demais e só se relaciona com as pessoas por meio da chantagem. Corrigir isso implica mudar de atitude. Os pais devem deixar muito claro os limites e parar para analisar em que situações estão tendo dificuldades de dizer não. A criança tem que perceber que daí para frente a vida vai mudar. Não vai mais ganhar um chocolate para terminar o jantar ou um brinquedo para arrumar o quarto. No começo, ela vai brigar e os pais vão ter de ser firmes.
A única maneira de vencer a parada é compreender que colocar limite é uma maneira de amar.
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